quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (1/18), índice



O

CARAMUJO

ROMANCE HISTÓRICO ORIGINAL


POR

ANTÓNIO AVELINO AMARO DA SILVA

_____

LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
RUA DOS CALAFATES, 110
1863


ÍNDICE


O Caramujo, romance histórico original,
António Avelino Amaro da Silva,
Lisboa, Typographia Universal
1863.



(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (2/18), prólogo


PRÓLOGO



Ó cidades que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda. (1)

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O relato das revoluções liberais na literatura documenta-se pela primeira vez com a publicação em 1845 de Julia e Luiza, Romance Histórico que Comprehende o Tempo do Dominio de Dom Miguel, de Francisco Pedro Celestino Soares. 

Depois desta novela vem à luz O Caramujo, de António Avelino Amaro da Silva, publicada em 1863, que focaliza a sua atenção no pensamento absolutista, como Flor de Myosótis, Romance Original (1886), de Alberto Pimentel.

En 1868 aparece o célebre Mário, Episódios das Lutas Civis Portuguezas de 1820 - 1834 (1868), de A. Silva Gaio, uma síntese da implantação do liberalismo em Portugal desdea revolução liberal vintista à Guerra Civil. 

Na década de 70 editam-se A Família Albergaria (Entre 1824 -1834), Romance Histórico Original (1874), de Guiomar Torresão e A Infâmia de Frei Quintino (Romance duma Família) (1878), de Faustino da Fonseca. 

O mesmo publicará em princípios do século XX Os Bravos do Mindello, Romance Histórico (1906) (2).

(n. do e.) O livro de António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, publicado em 1863, transporta-nos aos acontecimentos das Campanhas da Liberdade de 1831 a 1833. Em face da cultura e mentalidades da época, esperemos, pois, aí encontrar os estéreotipos e preconceitos sociais próprios do seu tempo.

O Caramujo, a partir de 1 de janeiro de 1911, foi também publicado em folhetins no jornal O Correio do Sul, folha semanal anticlerical e defensora dos interesses do concelho de Almada, de António Baptista Ferreira.


(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

(2) Magallanes o el noveno círculo

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (3/18), notas biográficas

António Avelino Amaro da Silva (c. 1821 – 1889)



Proprietário, engenheiro civil, agrimensor, piloto de navios.

Fazenda Flores do Paraízo, Nicolau Facchineti, 1875.
Imagem: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal.
Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro.
Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...]

in Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

Filho de António Silva (1801 - 1879), natural de Adão Lobo, Cadaval, e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, casados em 1821, ou mesmo em 1820. Deste casamento teriam nascido catorze filhos.

António Avelino Amaro da Silva poderá ter sido o primeiro filho do casal, tendo, por isso, o nome igual ao do pai, como era costume nesse tempo.

Conhecem-se-lhe quatro irmãos: Francisco Emygdio da Silva (1823 - 1887), primeiro taquígrafo da camara dos deputados; Christiano Gerardo da Silva, professor de música e artista (em 1908, proprietário, idoso, encontrava-se doente); Pedro de Alcântara e Maria da Gloria, estes ultimos gémeos, nascidos na freguesia da Encarnação, em Lisboa.

Entre 1831 e 1833 decorre a ação de O Caramujo.

Segundo D. Francisco de Melo e Noronha e José Carlos de Melo, António Avelino Amaro da Silva, foi testemunha ocular da batalha e da vitória ocorridas em 23 de julho de 1833.

António da Silva, seu pai, recebe a medalha das Campanhas da Liberdade, instituída em 1861, com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, pelo que existe a clara possibilidade deste ter participado nos acontecimentos relatados no romance, assim como, na descrição dos lugares e caraterização dos personagens.

António Avelino Amaro da Silva entra para a Escola Naútica em 1844 e, com o curso de piloto, permanece na Armada até 1855.

Chega ao Rio de Janeiro, como passageiro, no bergantim Clara [Bremen], proveniente de Santa Helena, após 12 dias de viagem.
[Correio Mercantil, 19 de julho de 1852]

De 1855 a 1859 publicita a sua actividade de agrimensor no Almanak Administrativo, mercantil e Industrial do Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

Em 1859 casa com D. Delfina Amelia de Aquino Silva (1840 - 1872), filha de Joaquim Rodrigues de Aquino, tenente, e de Mariana Osória Leite, então já falecida.
Valença

Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:

Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.

Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.

in Correio Mercantil, 7 de fevereiro de 1859

Instala-se na residência do sogro, na fazenda de Montacavallo, margens do Rio Preto, Santa Theresa de Valença, a região maior produtora mundial de café, nesse tempo.
Monta Cavalo e Mont’Alverne, criadas por Tomás Alves de Aquino, que viera do Turvo ou do Campo, como chamava a faixa do terreno além do Boqueirão. Tomás Alves deixou os seguintes filhos: Manoel Tomás, Joaquim Rodrigues de Aquino, Francisco de Assis Alves, Anastácio Rodrigues de Aquino, Dona Mariana, esposa de Joaquim de Paula e Souza e finalmente a esposa do Coronel Francisco de Assis Vieira, chefe do Partido Liberal até a queda do Império. Manoel Tomás Alves e Joaquim Rodrigues de Aquino tornaram-se proprietários das duas Fazendas comprando as partes dos outros herdeiros [...]

in Porto da Flores, Perfeitura de Belmiro Braga
Em 1862, noticia a liquidação de uns escravos de orfãos em que tem parte [Correio Mercantil, 25 de março de 1862].

No mesmo ano, legitimou-se a fim de obter o passaporte [Correio Mercantil, 12 de abril de 1862].

Em 1863 publica o romance histórico O Caramujo.

Em 1865 faz público que regressou da sua viagem á Europa, e que continuará com os seus trabalhos de medições de terras no Brasil, onde os exercia desde 1852.

Regressa ao Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1871, no paquete inglês Magellan [Diário do Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1871].

A 7 de março volta a partir para Lisboa, no paquete francês Sindh, por motivos alheios à sua vontade [Diário do Rio de Janeiro, 8 de março de 1871].

Ainda no mesmo ano, 1871, propõe ao governo de Portugal, para Lisboa, um caminho-de-ferro americano de tração animal.

A sua esposa falece em Lisboa a 1 de abril de 1872.

Falecimento em Lisboa; Lê-se no Dário de Notícias de Lisboa em data de 2 do corrente: "Faleceu hontem ás 11 horas e 43 minutos da manhã, a Sra. D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva, esposa do nosso amigo o Sr. António Avelino Amaro da Silva, proprietário e engenheiro civil. Era natural da provincia do Rio de Janeiro, onde conta muitos e abastados parentes. Contava 32 annos de idade. O seu funeral verifica-se hoje pelo meio dia. O inconsolavel esposo não faz especiais convites."

in Diário do Rio de Janeiro, 21 de abril de 1872

Em 24 de abril é rezada na igreja da Candelária, uma missa por D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva [Diário do Rio de Janeiro, 24 de abril de 1872].

Tendo sido offerecida pelo directores da Companhia Economia a sua chacara das Larangeiras pareceu á commissão benefico alvitre o de estabelecer nella casa de convalescença. Foram encarregados desse trabalho os dignos membros da commissão dos hospitaes commendador Miguel Couto dos Santos, Caetano Pinheiro e o Sr. António Avelino Amaro da Silva, dignissimo gerente daquella companhia, que infelizmente enfermou logo após os primeiros trabalhos de seu cargo. [...]
No dia 1 de fevereiro fomos privados dos valiosos serviços do nosso companheiro o Sr. António Avelino Amaro da Silva, que, tendo trabalhado e dirigido os trabalhos de limpeza e reparos da casa (o que fez com a mais energica e boa vontade) debaixo de chuva constante cahiu doente e foi obrigado a retirar-se. Desde então tem sofrido constantemente a ponto de não ter podido até hoje voltar ás suas occupações civis [...]

in Diário do Rio de Janeiro 14 de setembro de 1873

Parte para Lisboa, na companhia da filha, em 29 de outubro no paquete inglês Araucania [Diário do Rio de Janeiro 30 de outubro de 1873].
Distinção honorifica — A Sociedade 1° de Dezembro de 1640 [posteriormente Sociedade Histórica da Independência de Portugal], de Lisboa, conferiu ao Sr. António Avelino Amaro da Silva o diploma e medalha de ouro de socio honorario da mesma sociedade pelo importante donativo que fez á comissão representativa daquela sociedade nesta mesma Côrte. O Sr. Avelino é um dos bons cidadãos portugueses que entre nós teem residido não só pela sua honradez como pela estima em que teem os brasileiros, do que muito folgamos em dar testemunho proprio pelo conhecimento intimo que temos do seu excellente caracter.

in Diário do Rio de Janeiro 19 de dezembro de 1873

Distinção honorifica — Sr. redactor, lemos a noticia que V. deu no seu numero de hoje, de haver sido condecorado o sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, pelo serviço prestado na concessão feita de algumas acções da companhia que S. S. Era gerente, á Sociedade 1° de Dezembro de 1640. Não é nosso fim reprovar essa distinção, nem entrar na analyse se ella foi bem ou mal merecida; o que nos cumpre protestar é contra a boa intenção com que aquelle senhor fez esse donativo. Quem sabe o modo arrogante com que este senhor tratou aos dignos directores da companhia que havia confiado ao Sr. Avelino a gerencia dos seus negocios, a ponto de aggredir aum delles em pleno publico, apellidando-os com a grosseira expressão — gallegos — e outras de igual jaez, certamente terá comprehendidoque nem o patriotismo, nem o amor á Sociedade Primeiro de Dezembro de 1640 levaram o Sr. Avelino a semelhante acto. Quem insulta em publico os seus compatriotas, homens distinctos, cheios de serviços e de reconhecida posição social, chamando-os por um nome que aqui só é conhecido por injurioso, certamente que não merecia semelhante distincção. É neccessario não confundir patriotismo com fanfarronadas filhas do despeito.

in Diário do Rio de Janeiro 20 de dezembro de 1873

Em 1874, protesto de Antonio Avelino Amaro da Silva da Companhia Economia de lavanderia do Rio de Janeiro contra a accusação que lhe faz o relatorio da directoria de 31 de Julho de 1874 e analyse do mesmo relatorio [Biblioteca Nacional de Portugal].
A camara municipal desta cidade concedeu a auctorização ao sr. Antonio Avelino Amaro da Silva para estabelecer uma linha de caminho de ferro americano a partir do largo de Andaluz, pelas terras de Valle de Pereiro, rua do Salitre até ao Rato.

in Diário Illustrado, ed. 17 de novembro de 1874

Em Portugal, porém, onde effectivamente a palavra partidos é uma denominação completamente arbitraria, onde essa palavra não significa mais do que a reunião de um certo numero de homens, ligados não pelas mesmas idéas mas pelos mesmos interesses, comprehende-se que haja quem aspire vêr reunidos em uma mesma vereação os homens mais illustrados na certeza de que logo que se acharem debaixo do mesmo tecto, verão que há entre elles a mais completa uniformidade de principios e de opiniões. [...]
É evidente que o governo favorece a listas do Srs. Rosa Araujo, Visconde da Azarujinha, etc. apoiando assim a reeleição da camara transacta. A lista que lhes faz guerra é composta dos seguintes cavalheiros: Conde de Paraty, Luiz Manoel da Costa, Francisco Simões Carneiro, Joaquim António de Oliveira Namorado, José Elias Garcia, Antonio Ignacio da Fonseca, Manoel Gomes da Silva, Antonio Moura Borges, Zeferino Pedroso, Gomes da Silva, José Isidoro Vianna, Antonio Avelino Amaro da Silva e José Carlos Nunes [...]

in Diário do Rio de Janeiro, ed. 20 de novembro de 1875
Aproxima-se o dia para a eleição da vereação municipal que ha de gerir os negocios do municipio de Lisboa no proximo biennio e de dia a dia se activam os trabalhos preparatorios [...]
A segunda [lista] é composta dos seguintes cavallheiros: Conde de Paraty, par do reino, proprietario e grão-mestre do Grande Oriente Luzitano Unido; Joaquim Namorado, facultativo; José Izidoro Vianna, idem; Zophimo Pedroso Gomes da Silva, idem; Elias Garcia, lente da escoma do exercito e redactor da “Democracia”; José Carlos Nunes, negociante; Luiz Manoel da Costa, idem; Antonio Moura Borges, capitalista e negociante; Francisco Simões Carneiro, idem; Manoel Gomes da Silva, idem; Antonio Avelino Amaro da Silva, proprietario e engrenheiro; e Antonio Ignacio da Fonseca, cambista [...]

in O Liberal do Pará, ed. 7 de dezembro de 1875

Em 1876, Brito Aranha, confirma a presença de Antonio Avelino Amaro da Silva no funeral de Inocêncio Francisco da Silva, ambos pertenceram à loja maçónica 5 de novembro, mais tarde Loja Elias Garcia. No mesmo acontecimento é notada também a presença de António de Silva, seu pai [Silva, Innocencio Francisco da, Aranha, Brito, Dicionnario Bibliographico Português, Estudos..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1883].

Em 15 de março de 1877, regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua filha, no paquete inglês Sorata [Diário do Rio de Janeiro, ed. 16 de março de 1877].

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, Cotopaxi, 4,022 Tons, 1873.
Imagem: Picture Gallery of Steamers

No mesmo ano regressou a Lisboa, acompanhado pela filha, no paquete Cotopaxi, em 8 de julho.

Em 1879 falece o seu pai, António Silva, com 79 anos.

Em 20 de dezembro de 1887 falece o seu irmão, Francisco Emygdio da Silva, com 64 anos [Diário Illustrado, ed. 21 de dezembro de 1887].

Em 1889, António Avelino Amaro da Silva, falece na sua casa, em Carnide.
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil. O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846. Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal.

in Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889


Referências:

Biblioteca Nacional de Portugal
Biblioteca Nacional Digital Brasil
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (4/18), o veterano da bandeira


FOLHETIM
O VETERANO DA BANDEIRA

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

domingo, 14 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (5/18), introducção


INTRODUCÇÃO



Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

Quem sae da quinta dos Frades, na Outra-Banda, e segue a estrada para o norte, vae ter a um lindo valle, a que chamam Cova da Piedade, ficando-lhe da esquerda, na correnteza das casas, aquella onde está a aula de instrucção primaria, e a taberna da tia Libania, e da direita a capella real de Nossa Senhora da Piedade, fundada em 1762, e que deu o nome ao valle e á povoação que n'elle existe.

Era este o caminho que n'uma manhã de março de 1831 seguia o contra-mestre de navios mercantes, Joaquim de Jesus, por alcunha Espanta-maridos, montado n'um jumento de aluguel, d'aquelles que a toda a hora se encontram na praia de Cacilhas, e seguido de um rapazinho de pé descalço.

A alcunha foi-lhe posta por ter salvado uma pobre mulher, que o marido queria deitar da janella abaixo. Gritava ella que lhe acudissem, e toda a gente em alaridos, sem o brutal marido desistir, até que os brados e a expressiva mimica de Joaquim de Jesus lhe fizeram largar a presa.

Já se vê que o epitheto não era devido a motivos desfavoraveis para o contra-mestre.

Chegou Espanta-maridos á porta da tia Libania, e tendo-se apeado, saudou-a como antigo conhecimento, e tratou de reparar as forças com uma boa porção de conserva de cenouras, pão, queijo e vinho.

Em quanto se entretinha d'este modo, viu passar ao longe um joven official do 4 de infanteria, montado n'um dos taes burros de aluguel.

[Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

— Olá, tia Libania! Conhece vocemecê o parceiro (Espanta-maridos a todos chamava parceiros), que vae montado n'aquelle gafanhoto?
— Conheço, respondeu a Libania, limpando o balcão. É o sr. Narciso Gomes, que vae para casa de Antão Diniz, onde está a minha Felizarda a servir.
— E como se vae dando por lá a pequerrucha? Nem mais ella se lembrou do rapazola que a levava a passear ao Caramujo, e lhe dava figos, e lhe pôz ao pescoço uma cruzinha de prata. A proposito, que faria vocemecê da cruzinha de prata que eu dei á pequena?
— Pergunte-lh'o a ella, que nunca mais a tirou do pescoço, e já lá vão bons dez annos.
— Ora essa diz Espanta-maridos, repotreando-se no banco, e encostando-se ao balcão.

A conversação foi interrompida de fóra por uma voz bem conhecida dos dois, que cantarolava:

Os brejeiros do Caramujo
Não fazem senão dançar.

— Oh! exclama Espanta-maridos, dando um pulo para a porta. Ou tenho pela proa o meu mestre João Chrysostomo, ou é o diabo por elle.

Ouviu-se outra vez o mesmo estribilho, e appareceu na direcção da taberna a gorda figura do sr. João Chrysostomo, trigueiro, baixo, de barba grisalha, e todo vestido de preto, traje que nunca largava.

— Com licença, disse elle ao entrar a porta, toda tomada pelo contra-mestre.
— Com licença o quê? Pois tão velho estou eu, ou o sr. João Chrysostomo tão esquecido, que já se não lembra do seu discípulo Joaquim de Jesus, por alcunha Espanta-maridos?

Chrysostomo olha fixamente Espanta-maridos e exclama:

— Pois é o senhor... Pois és tu aquelle endiabrado marinheiro, que eu ensinei a ler em pequeno, e que se foi d'aqui sem mais se saber d'elIe! Dá ca esse abraço...

E o velho abraçou o contra-mestre tão apertadamente, que este gritou:

— Basta, sr. João Chrysostomo! Obrigado! Vocemecê é sempre o mesmo bom homem de outro tempo. Mas como está acabado!
— São mais dez annos, meu Joaquim. É tu tambem já não és a creança que eu aturei, estás um rapazão… grandes barbas, grande corpanzil... um homemzarräo.

N'este momento foi a taberna invadida por uma turba-multa de tanoeiros do Caramujo, o sacristão da capella, e outros rapazes, que tendo sabido da chegada de Espanta-maridos, o procuravam para lhe darem as boas vindas.

Depois de muitos abraços e muita conversação, tudo acompanhado de boas pingas, foi pouco a pouco ficando a taberna deserta, havendo-se ajustado todos para á tardinha irem ao Pragal e Almada; e sendo horas de aula, tambem Chrysostomo se foi a ensinar os seus discípulos, ficando sós a tia Libania e o contra-mestre.

Largo e Mercado, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

— Ó tia Libania! Como estes rapazes são meus amigos! Ha tanto tempo que me não vêem, e não se esqueceram de mim. Olhe que me pareceram um seculo os annos que andei lá por fóra. Vocemecê não sabe a tristeza que se apodera de nós quando de noite, em tempo sereno, estamos de quarto. Então é um passar e repassar pela imaginação de tudo o que nos ficou em terra, que se nos parte o coração de saudade, e damos ao diabo a vida do mar.
Mas dizia vocemecê que a Felizarda conservava a cruzinha de prata?
— E lá a tem comsigo em casa de Antão Diniz, onde se da muito bem com a familia. É boa gente aquella de Diniz… Bom velho… A mulher, D. Francisca, é uma santa senhora. E a filha… Se você a visse… a filha vae-se tomando um peixe. Borda, toca piano, e já os rapazes lhe arrastam a aza.

— Mas ainda deve de ser muito pequena?
— Qual! Tem os seus dezeseis annos, e é mocetona. Lá anda o Luiz Franco á roça, a fazer-lhe versos, a passear com ella… Talvez elle a abiche... E olhe que a pequena peza… tem riqueza… e não é nenhuma riqueza de figos...

— É bem rica, é. Mas esse Luiz Franco… não me recordo d'elle.
— É o Franco do Pragal, que está cirurgião ajudante no regimento do sr. Gomes. Cura por ahi todo o mundo, e nunca pede dinheiro. E quando lhe levam de presente alguma gallinha, leitão, ou cabrito, quasi que vae ás do cabo. Outro dia foi elle ver uma mulher aqui ao lado, e deixou-lhe um cruzado novo para os remedios.
— Ah! bem me lembro… aquelle estudantinho… Já se 'vê, é cá dos nossos. Eu sempre embirrei com cirurgiões; mas aposto que elle não e nenhum empanturrado, fallando de papo?
— Pelo contrario, falla com todos, brinca com os rapazes, toca viola franceza, dança, e olhe que apesar de tudo ninguem lhe falta ao respeito.

— Bem, bem. Não é como o cirurgião de bordo de uma corveta onde estive, que logo pela manhã parece que engulia pau de vassoura, e nunca mais o vomitava todo o dia. Tinha um forte estomago… Ás vezes engulia elle sua chufa d'aquelIas que fazem chegar a côr ao rosto, mas não lhe faziam mossa. O maldito, quando dava alguma coisa n'um marinheiro, o que sabia era mandal-o sentar e dizer-lhe: "Não é nada. Esteja com a cabeça baixa que a coisa passa." Mas uma vez fiz-lhe bater um moitão de encontro á cachola, e quando gritou, disse-lhe logo: "Não é nada, sr. doutor. Se v. s. tivesse a cabeça baixa, a coisa passava." E até o commandante se riu...
— Isto está muito mudado, disse a Libania, desde a sua partida. Morreram os paes do Franco, morreu a filha mais velha do tanoeiro Jeronymo...

— Oh coitada! exclamou Espanta-maridos. Ella tambem estava phtisica… Mas quem é esse Botelho?
— Ah você não conhece diz a tia Libania. O sr. Augusto dos Santos Botelho é lá de Lisboa. O pae era empregado na secretaria da guerra; veio aqui tomar ares e morreu, e a mãe pouco depois. O filho ficou no emprego do pae. É visita do sr. Antão Diniz, assim como o sr. Gomes, que ainda agora passou para o Caramujo. O sr. Gomes foi da marinha de guerra, depois passou para a tropa de terra. É filho da sra. D. Rosa, de Mutella, viuva de um official, antigo companheiro do sr. Diniz, e que morreu no Brazil.
— Conheço, diz Espanta-maridos. Foi elle quem me levou para bordo. Fizemos ambos uma viagem aos Açores, e depois nunca mais o lobriguei. Mudou de vida e fez bem, que não é boa a do mar. Heide ver se lhe fallo logo.

— Mas esse Botelho é algum figurão?
— O sr. Botelho, continuou a tia Libania, vive em grande luxo e gasta muito. Não se sabe d'onde lhe vem tanto dinheiro, porque tem ordenado pequeno, e o pae não lhe deixou nada. Eu não gosto muito do tal sr. Botelho. Tem uns ares de quem faz pouco caso da gente pobre, e a minha Felizarda embirra com elle, mais com o sr. Gomes, que ora está muito alegre, ora é um cabisbaixo e um semsaborão. Não é assim o sr. Franco; é outro homem, um bello moço.

Entrada do Jardim, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

E n'estas conversações se foi passando o tempo, desenferrujando a lingua a tia Libania, contando a Espanta-maridos a vida das pessoas do seu conhecimento, que ella mui hem sabia, até que appareceu novamente João Chrysostomo.

— Ó Joaquim, disse elle, entrando na taberna, cá está o teu velho professor. Acabo de impor os rapazes. Disse-lhes que tinha chegado um antigo discipulo, que não via ha annos. Custou-me hoje a tel-os quietos. Estiveram sempre a badalar sobre o collegio que a sra. infanta vae estabelecer em Almada.

— Qual d'ellas? diz Espanta-maridos.
— A sra. D. Maria d'Assumpção, respondeu João Chrysostomo. D. Francisca, que foi aia da infanta, metteu-lhe isto na cabeça, a infanta approvou, e estão já tratando de comprar a casa.
O collegio é para internos e externos. Internos hão de ser os orphãos de pae e mãe até á edade de 7 annos, e em passando d`esta edade vão para a casa pia de Lisboa. E os externos serão pequenos pobres, desde os 4 annos até aos 7. E admitte até 100 creanças. Deus abençõe a sra. infanta e a familia de Antão Diniz por tal lembrança. Olhe, tia Libania, se já existisse o collegio não estavam as suas pequenas a fazer uma algazarra que ninguem se entende.

Effectivamente as sobrinhas da Libania cantarolavam á porta:

Quando o rei chegou á barra,
Nova moda se inventou:
Quanto mais a fome aperta,
Mais se canta "O rei chegou."

Era a lettra da canção que amofinava João Chrysostomo.

A tia Libania deu grandes gargalhadas e disse:

— O sr. João Chrysostomo é boa pessoa, tem só o defeito de não ser do nosso systema.
— Ah sr. professor! Pois vocemecê gosta das cores azul e encarnada! observou Espanta-maridos com o tom mais amavel que sabia tomar.
— Mau! Diz Chrysostomo zangado. Quem lhe manda cá metter o seu bedelho, tia Libania! Tambem você tem systema! Era melhor que fosse ensinar o Padre Nosso a suas sobrinhas.

E saiu da taberna precipitadamente, sem attender ás desculpas de Espanta-maridos, e ralhando com as pequenas.

— É muito aferrado ao arrocho, disse a Libania. Mas todos o estimam, porque é muito serviçal. Faz todo o bem que póde, e nunca faz mal a ninguem.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

sábado, 13 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (6/18), sapo e doninha


SAPO E DONINHA



Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior (gravura), 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Já lá vão bastantes annos depois d'essa tarde de abril, em que Antão Diniz, de sobrecasaca azul com botões amarellos, galões de major nos punhos, chapéo redondo, e guarda-sol ao hombro, levava pelo braço D. Francisca Rosa de Lima, sua mulher, a santa senhora, como lhe chamava a tia Libania; adiante sua filha Mathilde, linda mocinha de l6 annos, com seus sapatos de fitas traçadas, e vestido de seda cor de canella, toda peralta, como tambem dizia a tia Libania; e á esquerda de D. Francisca, o joven Luiz Franco, a cara mais sympathica de rapaz que eu tenho conhecido.

La se ía este ranchínho na direcção da Arealva, por aquella empoeirada estrada, para onde a brisa impellia os aromas de mil odoriferas plantas. Sobre elle o nosso bello sol meridional projectava a sua cor doirada d'entre o azul da abobada celeste. Ao longe ouvia-se a chiada dos carros e o saudoso ulular dos moinhos.

Ó cidades. que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda.

Lá vão pois estrada fóra; e para fazerem o passeio mais longo, ao chegarem ao poço de Cacilhas sobem a Almada, contemplam Lisboa, cidade que d'ali parece como feita de marfim, e a que só faltam os minaretes para se afigurar ao viajante uma cidade mahometana, tão branca e phantastica se apresenta á vista com seu hello porto, vasto, e ermo de navios n'esta época da decadencia de Portugal...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Depois descem á Bocca do Vento, dirigem-se a Olho de Boi, e percorrem o longo caes que conduz á entrada da Arealva. Eil-os na quinta d'este nome, nos bancos de pedra, junto ao portão, debaixo das velhas arvores.

— Pae! Se eu fôra rapaz, diz Mathilde, havia de vir muitas vezes deitar-me á sombra d'este arvoredo, a olhar para o céo, para o Tejo, e para as penedias que estão por cima de nossas cabeças.
— Para que filha? diz Antão Diniz.
— Ora para que... para que não sei... Gosto muito de estar aqui.
— É um optimo logar para pensar, para meditar, observa Luiz Franco.
— Para pensar! replica Mathilde. Pois póde-se pensar quando se está diante d`estas scenas?!... Eu por mim não posso senão contemplar, e acho pouco todo o meu coração para isso.
— Já senti o mesmo, filha, tornou Antão Diniz, se bem que não soubesse então, nem me atravesse a exprimir taes sensações, com medo de que ellas fossem grande defeito da minha alma, defeito que me cumpria occultar; mas hoje que aprecio melhor o juizo que então formava das minhas sensações, sei fazer justiça ao teu coração.

— Muito bem, sr. Antão Diniz, observa Luiz Franco. Mas a longa contemplação das bellas paisagens costuma trazer no fim certa porção de tristeza, um sentimento que acabrunha o espirito, e como que lhe embota por momentos as faculdades; sentimento a que nos esforçâmos por subtrair-nos (tanto elle nos enleva!) transportando-nos a logares mais prosaicos.
— É, diz Antão Diniz, porque a contemplação não interrompida de tantas maravilhas cansa a alma, e ella precisa de descançar em outros objectos menos imponentes. Tudo no mundo tem e precisa ter verso e reverso, claro e escuro, e a sensibilidade da alma não é exceptuada da regra geral.

— Quem será que lé vem adiante? — diz D. Francisca, que principiava a aborrecer-se com a conversação.
— Parece marujo — observa Franco. Effectivamente da banda do Olho de Boi vinha um marinheiro alto, que ao chegar proximo do grupo de que fallamos, tirou o seu chapéo embreado, e deu as boas tardes, acrescentando:

— Acaso v. ex.as perderam alguma coisa?

Depois de alguns momentos, disse Mathilde — Perdi o meu lenço.

— É este? Aqui está, e por feliz me dou em ter achado este lencinho da sr.a D. Mathilde, filha do sr. Antão Diniz, de quem sou humildo criado.

Espanta-maridos disse tudo isto porque viu que o não tinham reconhecido; mas disse-o do um modo que á força de ser delicado degenerava em grotesco, o que fez sorrir Luiz Franco.

— Quem és tn que nos conheces? — perguntou Diniz com modo benevolente.
— Sou Joaquim de Jesus, o Espanta-maridos, alcunha que nunca pude saber quem foi o parceiro que m'a poz, mas que nunca mais pude tirar de cima do lombo.
— Ó Joaquim de Jesus! Tu por aqui! Então que é feito? Chega-te cá, meu rapaz, que te quero dar um abraço.

Espanta-maridos abriu os braços, e deu um passo para diante, mas parando de repente, disse:

— Não acceito. É demasiada honra para um engeitado e marinheiro.
— Será, será; mas não para homens como tu, que possuem um nobre coração. E abraçaram-se.

Depois recebeu Espanta-maridos outro cordial abraço de Franco, e fez os cumprimentos ás senhoras.

Ora ha em toda a gente da Outra Banda ricos e pobres, um certo ar de affabilidade e de agasalho mutuo, que diflicilmente se encontra nas cidades.

Ali o abastado trata o pobre e o miseravel com toda a urbanidade, conversa e mesmo ri com elle, mas isto de modo tal que não exclue o respeito entre as differentes classes; e a gente de Lisboa que lá vae passar o verão affaz-se sem custo a tão bella familiaridade.

Ás vezes de tarde em Cacilhas, no Caramujo, na Piedade e em Almada, parecem todos mais uma tribu, que uma reunião de familias estranhas e distinctas entre si em interesses e posição.

E tambem isto se encontra pouco nas outras terras do campo.

— Então está de marinheiro em algum navio mercante? perguntou D. Francisca.
— De contra-mestre, minha senhora. Vim ha pouco de Cabo Haytiano, foi a minha ultima viagem.

— Se me não engano, disse Luiz Franco, Cabo Haytiano e o antigo Cabo Francez, hoje capital de uma republica de pretos. Havia de ver por lá coisas bem curiosas.
— Muitas, respondeu Espanta-maridos. É a viagem mais divertida que tenho feito na minha carreira de marítimo, que ainda assim não e muito longa 18 — annos somente.

— Lá as mulheres são todas pretas: não é assim? — diz Mathilde.
— Pretas e mulatas; mas estas ultimas são bem poucas comparadas com as pretas. Ha algumas brancas, mas são de familias de ministros, cônsules e alguns poucos negociantes estrangeiros. Ha deputados pretos, generaes pretos, almirantes, juizes, marítimos, tudo é preto ou mulato, e as mulheres e filhos tambem.

— Se o sr. Joaquim de Jesus tivesse a bondade de nos contar algumas coisas do que por lá viu, muito estimaria ouvil-o disse D. Francisca.
— Com todo o gosto. Mas v. ex.as hão de achar mais interessante a leitura dos apontamentos que o piloto tomou do que observava quando ia a terra. Elle, como era muito meu amigo, deu-me o borrão depois de o ter passado a limpo. Trago-o aqui, e se v. ex.as quizerem lerei algumas folhas.

Enseada da Glória, Ponta do Calabouço e Morro do Castelo, litografia de Benoist e Ciceri, 1852
Imagem: Especial Rio Antigo no Facebook

Desejando todos saber o contheudo do manuscripto, Espanta-maridos foi buscar um carrinho de mão, que estava proximo, voltou-o, sentou-se em cima, e disse:

— Antes de começar a leitura, devo dizer a v. ex.as que parti do Rio de Janeiro de contra-mestre a bordo do Conceição Flor de Maria [o bergantim, pequeno veleiro de transporte e comércio, ainda operava em 1885], da praça de Lisboa, com direcção a New-York; mas tendo-nos adoecido na altura das Grandes Antilhas alguns marinheiros e o capitão, este, que era dono do navio, quiz arribar a Cabo Haytiano, onde o ministro hespanhol era muito seu amigo e pessoa rica. Ancorámos com effeito em Cabo Haytiano, cidade de muito mesquinha apparencia, e transportados os doentes para casa do hespanhol, ficou o piloto, que era filho do capitão, encarregado do navio, e aqui está. o que elle nas horas vagas se entretinha a escrever:

— "Apenas cheguei a Cabo Haytiano, desembarquei, e ao sair da alfandega fui logo rodeado de gente esfarrapada, que com grande insistencia me pedia esmola. Contentei-os. Metti-me depois pela cidade, e breve deparei com um grande ajuntamento de pretalhada á porta da casa da misericordia. Estavam ali empilhadas perto de 2:000 pessoas de ambos os sexos.

Era a venda dos bilhetes da loteria. A todo o instante saiam d'aquelle immenso grupo gritos de soccorro e desesperação. Por vezes foram lá pequenas forças de infanteria e cavallaria para valerem aos desgraçados que succumbiam no apertão e fazerem com que elle diminuisse; mas nada remediavam. E como precederam no fim de tudo as auctoridades? Deixaram continuar aquelle horrivel espectaculo, e limitaram-se a mandar por macas no largo para levarem ao hospital ou ao cemiterio os que ficassem contusos ou mortos.

E effectivamente assim aconteceu, porque morreram duas pessoas, e ficaram bastantes gravemente pisadas. E não foi por falta de tropa, porque a guarnição da cidade era de muitos mil soldados de todas as armas. Fiquei logo por este facto entendendo que estava em terra de barbaros, e o mais que observei me confirmou n'esta opinião.

No dia seguinte passei outra vez pela casa da misericordia, e entrei na egreja. Estava á porta uma turba de mendigos fazendo lamuria. Havia grande funcção, o povo era immenso. Olhei em roda, e vi uma bancada, e n'elIa em cadeira dourada e de espaldar um preto gordo de argolas de ouro nas orelhas. Vi então chegar outro preto vestido exactamente como os chamados irmãos de azul da misericordia de Lisboa. Trazia na mão uma tenaz de prata com uma braza. Parou diante do preto gordo fazendo-lho grande venia. Este puchou de um charuto, accendeu-o, e poz-se a fumar. Interroguei a este respeito um mulato que me ficava ao pé, e respondeu-me que a ninguem era permittido fumar na egreja, mas que o fazia, com grande escandalo, o irmão do marquez de Branques, que era o tal preto das argolas, e ninguem lhe ia á mão por ser o provedor da misericordia e fidalgo de muita importancia.

Em outro dia passei pela casa das sessões legislativas e entrei. Ouvi por muito tempo questionar qual de dois deputados era o que devia fallar primeiro. Houve sobre isto discursos e votações. Acabada esta questão, approvou-se a despesa de alguns contos de réis com a compra de pós para matar pulgas e percevejos nos quarteis da tropa. Seguiu-se a approvacão de uma pensão para a mulher do presidente da camara, o que muito o contentou porque se estavaa rir e a rebolar na cadeira a cada momento. Seguidamente votou-se que se dessem a um engenheiro inglez 75 contos de réis por alguns estudos de portos e barras.

O homem estava na galeria, era meu conhecido, e fallava alguma coisa portuguez. Apenas se votou o seu negocio, veio logo ter comigo, e disse-me com a maior franqueza:

— Estes estudes, senhorre portugasio, valerre une bagatelle; mas no force, mim fique agora rique. Mim e otrres estrancheires combinarre com Ministres negrres; elles entreterre populache com politiques, e fazerre comigue e outrres aventureires contrrates ruinoses pârre Hayti. Nós dividirre com chefes de maiorie e opposicione, e assim mim e elles todes vae ficande riques. Nós e homes grrandes de Hayti, excepte poques cabeçudes, sérre todes come une companhie de cavalheires de industrie. Elles e nos tinhe sapates ha dois dies, e hoje temes carriges e cavalhes. Hayti fique arruinade; mas o proveito de quem é, senhorre portugasio? — dizia-me elle batendo-me palmadas nas costas, e dando grandes gargalhadas. Quande gate come frangues o proveite de quem é?

— É de gate, respondi eu com egual hilaridade. Depois approvou-se um emprestimo feito ao governo por um banqueiro alemão, em que este ganhou e o Hayti perdeu coisa de um milhão de cruzados.

E depois... saí pela-porta fóra farto de presenciar tantas miserias.

Quando fui a Leogane vi uma coisa extraordinaria.

N'uma grande casa, as grades de ferro das janellas, estavam muitos pretos que deitavam para fora paus de que pendiam atados em cordas cabazes, cestos e cabeçadas de burro, assim a modo de quem pesca ao candeio, e pediam com vozes lacrimosas que lhes deitassem ali alguns cobres.

Era a prisão da cidade. O espectaculo pareceu-me hediondo. E passava-se isto n'uma das principaes praças publicas.

Tendo eu comido em terra algum peixe temperado com vinagre, á noite a bordo fui acommettido de uma violenta colica. Era do vinagre, que estava adulterado. Tambem encontrei no fundo de uma chavena de chá alguma limalha de cobre. Era do assucar, que lá se retina em grandes bacias d'aquelle metal. Comprei um pouco do chá, e ao passal-o para um vidro notei que o papel ficava esverdeado. Disseram-me que não estranhasse isto, porque o governo d'aquelle paiz não se importa com a saude publica, e cada qual pode a seu salvo vender generos falsificados.

Quando percorri as margens do Artibonite, vi que o terreno era mui fertil, e que a maior parte estava por cultivar.

Vêem-se excellentes campos todos cobertos de matto e convertidos em charnecas, e aldeias miseraveis habitadas por gente rota e immunda."

— Basta, Espanta-maridos! — disse Antão Diniz. Muito prazer nos daria a continuação da leitura; mas vae-se fazendo tarde, e ainda estas senhoras não passearam na quinta. Apparece lá por casa com esses apontamentos, que muito nos teem divertido os costumes da pretalhada.
— E ainda v. ex.as não ouviram mais do que uma pequena parte, disse Espanta-maridos, guardando o ensebado manuscripto.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

Effectivamente entraram todos para a quinta, e passeando, ao chegarem perto do pequeno logar da Arealva, ouviram quasi aos pés um guinchar de afflicção, como de ratinho perseguido por gato.

— Olhe, mãe, para aquelle lado — exclama Mathilde. Está ali um sapo, e anda um ratinho a guinchar em frente d'elle. E o maldito sapo está de boca aberta.
— Paremos aqui, e sentem-se sem fazerem bulha, disse Antão Diniz. Vamos agora ver um dos phenomenos mais singulares que se dão na natureza.

É o sapo engulir uma doninha pela simples influencia da fascinação.

— Tinha ouvido fallar n'este phenomeno, disse Luiz Franco, mas até hoje ainda o não tinha presenciado. Estou com curiosidade de o ver.
— Então o sapo come a doninha? — disse Mathilde.
— Come sim, e vaes ver — respondeu Diniz.
— Se não fosse o sr. Antão Diniz querer ver o caso e mostral-o ás senhoras, já o sapo não estava com vida, observou Espanta-maridos.

Com effeito no meio do chão-estava o nojento reptil, muito grande, immovel, e sem tirar os olhos da pobre doninha.

Esta, parecida com um pequeno rato, porém mais bonita, e côr de castanha, corria de um lado para o outro formando meios círculos diante do sapo, o qual não desviava um momento a vista de sobre ella.

O animalzinho guinchava dolorosamente, levantava-se nos pés, corria e estremecia, mas olhando sempre para o sapo. Alguns instantes durou esta lucta, e a doninha ia estreitando a seu pezar os semicirculos que fazia, até que dando maiores guinchos, correu para diante, e metteu-se pela boca do sapo, que n'um instante a enguliu.

— Está acabado o phenomeno, já vimos: agora sô Joaquim de Jesus faça a sua vontade.

Espanta-maridos não se fez rogar, arrancou um tronquinbo do uma videira, e espetou o sapo, puchou da navalha, abriu-o, e tirou-lhe de dentro do bucho a doninha ainda estrebuchando.

Mas a coitada envolvida na baba immunda do reptil, acabou logo de espirar.

Quinta da Arealva, Margarida Bico.
Imagem: Panoramio

— Bem feito, sr. Joaquim de Jesus, bem feito. Mas a nossa curiosidade custou a vida á pobre doninha — disse D. Mathilde.
— No Brasil, observou Espanta-maridos, ha umas cobras que teem o mesmo poder de fascinação, e até sobre creaturas humanas as vezes o exercem.

Dito isto deitou fora a doninha e cravou no terreno a vara, ficando o sapo espetado na extremidade superior d'ella.

A este tempo appareceram Botelho e Gomes, e a sociedade continuou a passear separando-se um tanto adiante Mathilde, Franco, Botelho, e Gomes, e ficando mais atraz Diniz, sua mulher e Espanta-maridos.

— Não sabem, meus senhores, disse Mathilde, que vi ainda agora um sapo engulir uma doninha pelo poder da fascinação? Era uma coisa que ainda não tinha visto e mais sou filha da Outra Banda.
— E então: v. ex.a não afugentou o sapo? Bastava atirar-lhe com qualquer coisa para se quebrar o encantamento, disse Botelho.
— O marinheiro queria salvar a doninha, mas meu pai oppoz-se para nós vermos o caso.

— Ha paes que se dariam por muito felizes se em certas oocasiões tivessem podido evitar que as doninhas caissem na boca dos sapos; disse Gomes para Botelho gracejando.

— Mas nem todas as doninhas são engulidas pelos sapos, observou Luiz Franco: ou sabem desviar-se a tempo, ou apparece alguma alma caritativa que impede o effeito da fascinação.

Todos se riram muito d'esta observação de Franco. Fazia calor, e o caminho começava a ser ingreme.

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858. Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— Ah! como estou cançada, disse Mathilde, e doem-me os pés.
— Apoie-se v. ex.a no meu braço — apressou-se Gomes a dizer. Eu a ajudarei a subir até á Boca do Vento.

— Muito obrigada, sr. Gomes ; mas v. s.a é muito alto; e talvez, se não incommodasse o sr. Franco, fosse melbor-que elle me desse o braço, porque é mais baixo, è melhor para meu braceiro.

Gomes fez-se pallido, e Luiz Franco, apressou-se com toda a delicadeza a dar o braço a Mathilde.

Quanto a Botelho fez um movimento, mas não se resolveu a offerecer-se.

— Fiquei com tanto nojo do reptil, que me parece que o estou vendo apparecer debaixo dos pés.
— Socegue v. ex.a, diz Franco, que por aqui não se encontram sapos.
— Quem sabe, respondeu Matbilde rindo, talvez algum saísse da quinta, e ande por aqui mesmo ao pé de nós.

— Eu o que vejo são flores, e aqui está uma bem singela e bonita, disse Gomes, apanhando um malmequer. Eu gosto muito d'estas flores do campo. Digne-se v. ex.a acceital-a. — Oh! não, sr. Gomes, respondeu Mathilde, e não é pela pessoa que m'a offerece que muito considero e estimo, mas pelo nome da flor... malmequer!
— Quer v. ex.a esta cravina? Disse Franco, tirando uma cravina da abotoadura da casaca.
— Acceito antes a cravina. É uma flor mais delicada e menos commum, ao passo que o malmequer é de nome e côr desagradavel, e nasce por toda a parte. E que bello aroma que tem a cravina!

— Perdoe v. ex.a; quer ver como a flor vae desmentir o nome? E Gomes, dizendo isto, começou com uma curiosidade infantil a dizer "bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer" á medida que ia passando pelos dedos as folhas da flor sem comtudo a deteriorar, ate á ultima, a que correspondiam as palavras " mal me quer" Fiquei logrado, continuou elle, a flor deixou-me ficar mal; mas quando a offereci a v. ex.a era na idéa de que a final desmentisse o seu nome.
— Pois bem, disse Mathilde, acceito-a para não parecer impertinente. Mas vamos a tanta distancia. Esperemos aqui pelos nossos companheiros.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

E sentaram-se todos tres no alto da Boca do Vento. Entretanto chegaram Antão Diniz e sua mulher acompanhados de Espanta-maridos, e todos seguiram o caminho do Caramujo, indo Botelho ficar n'essa noite a casa de Gomes.

Quando Mathilde se recolheu ao seu quarto, Felizarda disse-lhe:

— O sr. Gomes pediu-me encarecidamente que entregasse esta carta á menina. Elle pediu-me tanto, que eu não pude recusar-me, mesmo porque me disse que se não a entregasse me intrigaria com Espanta-maridos, que, como a menina sabe, é o meu namorado.
— Ah ! com que elle deu-te a carta e disse-te isso! respondeu Mathilde abrindo-a. Vamos a ver.

Lida a carta, que era uma protestação amorosa, Mathilde dictou e Felizarda escreveu os seguinte — Sr. Gomes — Escusa de se cançar: digo-lhe uma vez por todas que perde o seu tempo.

No dia seguinte, ao alvorecer, foi Gomes ao Caramujo, recebeu de Felizarda a resposta á sua carta, e cheio de despeito partiu pouco depois a reunir-se ao seu regimento.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (7/18), Melampigo


MELAMPIGO



Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

A rua da Judiaria em Almada foi sempre, como ainda é, uma rua feia e immunda, com a diferença de que hoje varrem-na mais amiudo do que antigamente, e é illuminada de noite a azeite de peixe;

mas apesar d'isso era ali, n'uma casinha de primeiro andar, que se reunia a rapaziada fina de Almada e dos logares próximos.

O dono da casa, Pedro Marques de Faria, era um velho folgasão, em cujo animo nunca entrou a tristeza, ainda mesmo nos momentos mais graves da vida. Dizidor e peteiro, sempre tinha alguma nova anecdota que contar, alguns versinhos que recitar, algum caso notavel de que ouvira fallar em Lisboa, ou as novidades politicas falsas e verdadeiras de que a epoca era abundante.

Quasi todas as tardes ajuntava elle em sua casa umas vinte a trinta pessoas; e estas reuniões da — sociedade de Pedro Marques de Faria — como lhe chamavam na Outra Banda, prolongavam-se pela noite adiante, quando o tempo não estava sereno; porque, quando o estava, iam de ordinário passar a noite á praia do Caramujo, Arealva, ou á Fonte da Pipa, que eram os sitios predilectos.

Havia entre os socios muitas pessoas que tocavam diversos instrumentos, e que formavam uma pequena orchestra regida pelo bom velho, que como todos os regentes de orchestras, tocava rebeca.

Não era o que hoje se chama uma philarmonica, era mais e menos que isto, porque não havia orchestra regular, e em vez de trechos de operas cantavam-se modinhas, recitava-se poesia acompanhada á viola ou guitarra, e jogava-se, sem ser a dinheiro, o assalto, o gamão, as damas e o bilhar.

Tambem havia ás vezes sombrinhas, e n'esses dias era a casa visitada por pessoas das mais importantes da terra. O mesmo Antão Diniz, posto que velho e achacado, vinha então com a familia, e outras vezes só, ou com alguns dos seus rapazes, como elle chamava a Franco, Gomes, e Botelho, a saber as novidades de Lisboa.

Ia lá tambem mestre Jeronymo — o decano dos tanoeiros, e seus filhos — os mais alentados mocetões dos sitios, e outras pessoas, e toda esta gente se divertia com uma certa seriedade, o que era peculiar á mocidade portugueza d'aquelles tempos, em que não se sabia que coisa eram troças, em que não havia periodicos que publicassem nos folhetins, noticiarios e correspondencias coisas torpes sobre a honra das familias; em que a auctoridade era respeitada e os representantes dos poderes constituídos; em que nenhum grande sabio se atreveria a alludir em uma reunião publica menos respeitosamente ao chefe politico da sua nação, nem nenhum deputado a dar pateadas estrondosas a uma dama na platéa de um theatro e a atirar-lhe osculos diante do seu rei.

Pois, apesar da falta de civilisação d'aquelle tempo, apesar da mocidade não saber o que eram os seus direitos politicos e civis; apesar de não haver jornaes que vomitassem injurias sobre senhoras de alta jerarchia e de grandes virtudes, que na vespera tinham matado a fome ao seu proximo com a sopa economica, e que no mesmo momento do insulto subsidiavam asylos onde se mantinha e educava a infancia desvalida e os orphãos victimas da peste;

apesar da mocidade não ter ainda chegado á grande ventura de ir votar, para a representarem nos comicios legislativos, em homens que foram metter nas garras dos negociantes flamengos ilhas importantes adquiridas pelos amigos portuguezes na Oceania:

essa mocidade, apesar de tão ignorante, tinha ao menos aquella pobre virtude de ser bem creada, e no meio de tantas facecias e do ridiculo das truanices, a que o divertimento das sombrinhas se prestava, não duvidava tocar, conversar, rir e tripudiar diante de homens da velha tempera de Antão Diniz, e de Jeronymo, o tanoeiro, o homem mais respeitavel d`aquella digna classe de homens sobrios, forçosos e honrados, que eram a gloria dos pitorescos sitios da Outra Banda, e que o maldicto oïdium tukery dispersou, esmagou e aniquilou.

Feliz epoca, e feliz mocidade que não discutias em aulas publicas se Homero tinha tido sempre um olho cégo ou dois, nem philosophias de historia, coisa mui superlativa, porque, como dizia um bom velho parlamentar — por fim de contas não ha nada como tudo o mais é historia!

Era pois a época em que florescia em Almada a sociedade de Pedro Marques de Faria, e era vespera de S. João do anno de 1831.

Havia grande reboliço em todas as povoações da Outra Banda, aonde affluia muita gente de Lisboa para ver as fogueiras, os fogos de artificio, e assistir ás mais diversões que duram toda aquella noite e os dois dias seguintes, porque este sancto e muito festejado n'aquellas terras.

Tomava grande parte n'estes folguedos Pedro Marques de Faria e os rapazes da sua sociedade; e assim logo de manhã cedo via-se na enlameada rua da Judiaria grande numero de burros á porta da casa de Marques, e d'ella saía o ancião vestido como os velhos de entrudo á Luiz XV, com grande luneta e caraça de monstruoso nariz, os filhos de Jeronymo de pastorinhos, Espanta-maridos de gallego, e todos os mais de mouros, guerreiros antigos e pescadores.

A cavalgada dirigia-se a Cacilhas, onde se lhe reuniam alguns pandegos capitaneados pelo Papa-fina, barbeiro de Lisboa.

Quasi todos iam tocando rebecas, guitarras, cavaquinhos, flautas e adufes, e ao som d'esta musica percorriam as povoações, visitando as casas dos moradores ricos, até irem dar á Ramalha, de lá á venda da tia Libania na Piedade, depois ao Caramujo, onde se apeavam, e dançavam defronte das janellas de Antão Diniz;

partindo d'ali para Almada, e descendo á Fonte da Pipa, onde tinha logar um grande jantar, ao ar livre, n'aquelle quintalinho á esquerda da pequena ponte, no sopé da eminencia coroada pelo castello da villa.

Cais da Fonte da Pipa (Olho de Boi), gravura, Pierre Eugène Aubert, 1820.
Lisboa, vista tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Doces recordações da juventude! Fonte da Pipa! Nayade querida, inexgotavel manancial de purissimas aguas! Que Deus te abençôe como eu te bem-disse quando mitigando a sede, espargia ao longe olhares saudosos, invejando as gaivotas as suas azas para me embalar no espaço, e me deslizar por sobre as vagas do formoso Tejo, n'uma d'aquellas manhãs em que o astro do dia, toucado de delgadas nuvens, ordena ao sul que sopre brandamente, e imprime a seus raios um colorido prateado!

Perto da noite toda aquella mocidade voltava em numero de quasi 60 pessoas, a percorrer os arredores da villa até principiarem as fogueiras, que se saltavam, e onde se queimavam alcachofras no meio de risos e descantes; dividindo-se e subdividindo-se a turba pelas casas, em que se brincava o resto da noite.

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal.

No rocio de Almada havia um coreto de musica, d'onde partiam para as casas compridas grinaldas de louro e murta, entremeadas de lanternas para a illuminação á noite; e faziam-se ali n'essa tarde cavalhadas, para o que se lançava de uma janella a outra, em todo o comprimento da praça, uma grande corda, em que se penduravam panellas de barro cheias de agua de cheiro ou de ratos, balõezinhos contendo pardaes ou lagartixas, casaes de pombos, de rolas, e outros objectos.

Uma duzia de mascarados a cavallo em rocinantes tentavam, cada um por sua vez, na corrida a galope, desprender da corda e enfiar nas lanças de que vinham armados estes premios d'aquelle jogo; mas quasi sempre se quebravam as panellas, se rasgavam os balõesinhos, e voavam os pardaes, os pombos e as rolas, caindo os ratos, a agua de cheiro ou as lagartixas por toda a praça, o que dava logar a grandes risadas, chufas e applausos.

Durava isto por muito tempo, e todos se mostravam mui satisfeitos.

Á noite illuminava-se todo o Rocio, queimava-se um fogo de vistas, e appareciam novamente a dança dos pausinhos e outras, tudo com muitamusica e arruido.

Na tarde do dia seguinte corriam-se touros em S. Paulo.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A esta funcção não concorria Pedro Marques que a detestava; mas ia lá Espanta-maridos, e quasi toda a sociedade de Pedro Marques.

E quem ia tambem era Antão Diniz com sua familia, porque desde que estivera em Montevideu, muito em rapaz, tinha tomado o gosto pelas tauromachias, e n'estes espectaculos costumava sair um tanto do seu serio, gritando, batendo com a bengala, e dando a sua opinião em voz alta como grande amador e enthusiasta do divertimento.

Por isso estava elle n'um dos melhores camarotes da praça com D. Francisca á direita, Mathilde á esquerda, e Felizarda em pé atrás d'eIles, que ainda n'esse tempo os criados se não sentavam em publico na presença de seus amos. Se Mathilde era formosa, e todos o confessavam, muito mais o mostrava n'esse dia, e a tal ponto que era o enlevo de todas as vistas.

Luiz Franco, como sem incommodar não podia fazer companhia a Diniz no mesmo camarote, occupava o immediato da esquerda com os Batalhas da Arreinella, e no outro da direita via-se Botelho com Domingos Alfonso da Arealva e João Chrysostomo.

Usavam as senhoras n'essa epoca enfeites de flores artificiaes no cabello, que muito bem lhes ficavam, e Mathilde não se subtraía a esse preceito da moda;

mas em vez de muitas como as outras damas, apresentou-se apenas com uma pequena flor vermelha em tudo similhante á cravina que lhe offerecera Franco no passeio á Arealva e ella acceitara.

Não escapou isto a Botelho, que ralado de ciumes não se pode conter que não dissesse a Chrysostomo que muito mal estava a Mathilde aquelle singelo enfeite.

Quanto a Espanta-maridos esse representava de neto [a auto­ri­dade na arena que, seguido pelos pajens, abre as corte­sias, i.e. apre­sen­ta os inter­ve­ni­en­tes], e entrou na praça fazendo as venias usuaes do seu papel;

demorando-se n'estes cumprimentos diante do camarote de Antão Diniz onde estava a sua Felizarda, perante quem perdeu os estribos e esteve para ir ao chão por fazer filistrias com o cavallo.

A corrida era de sete touros todos bravissimos, e passou-se sem novidade a dos primeiros seis.

Restava o setimo que se dizia ser o mais bravo, e que seria picado por um cavalleiro que se havia de apresentar de mascara, e de quem só sabia mo nome os directores da funcção, que guardavam a este respeito grande segredo.

Eram n'esse tempo os combates de touros muito da moda entre a fidalguia portugueza, porque el-rei era muito dado a este divertimento, e elle mesmo toureava como os melhores toureiros de profissão; por isso os jovens fidalgos para lhe agradarem davam de vez em quando corridas de touros, em que faziam de cavalleiros, capinhas e homens de forcado.

Em consequencia, annunciando-se um cavalleiro, que havia de tourear mascarado para não ser conhecido, todos se perdiam em conjecturas ácerca de quem seria, chegando-se a fazer algumas muito despropositadas, e as mais razoaveis eram de que algum grande fidalgo tinha tido este devaneio, mas que naturalmente se daria a conhecer se saísse airoso do combate.

Toureiro mascarado, anúncio ou ingresso relativo a corrida de touros na praça do Campo de Sant'Ana, 1881.
Imagem: Fórum Touradas

Esta novidade concorreu muito para se apinhar a praça de gente a mais não caber, e Antão Diniz, que participava da geral curiosidade, depois de ter feito perguntas todas baldadas a este respeito, dizia a D. Francisca:

— Que será feito de Gomes? Se aqui-estivesse já saberiamos quem é o cavalleiro, porque n'estas coisas anda sempre bem informado.
— Ainda o não vi esta tarde, respondeu D. Francisca, e admirada estou, porque sua mãe D. Rosa veio ao espectaculo, e lá está defronte n'um camarote só com a criada, e porque elle nos tem acompanhado sempre nas festas.

Palavras não eram ditas que entra pela praça o cavalleiro desconhecido montado n`um soberbo alazão, e com dois capinhas aos lados.

Levantou-se logo um borborinho de satisfação, que terminou em palmas quando o viram fazer os cumprimentos do estylo com todo o garbo e mestria; não escapando aos observadores a circumstancia e elle ter feito curvar os joelhos ao cavallo, inclinando-se todo na, sella em signal de grande respeito e submissão, quando passou em frente dos camarotes de D. Rosa e de Antão Diniz, detendo-se algum tempo diante d'este ultimo como que contemplando, segundo parecia, a bella Mathilde.

Trajava o desconhecido, calção de seda côr de canella, que ou fosse acaso ou proposito, era a mesma côr do vestido de Mathilde, com muitos enfeites amarellos, jaleco azul claro, mascara de setim preto, e gorro vermelho matizado de malmequeres.

Concluídos os cumprimentos e tendo-se postado diante da porta do curro, saltou o touro com grande furia, e todos viram que trazia o dorso manchado de sangue, por ter sido espicaçado pelos campinos, a recommendação do proprio cavalleiro, com o fim de o tomar mais raivoso.

Era o touro claro, e arremetteu direito ao cavalleiro. Este desviando o cavallo evitou a marrada de frente; mas quando na corrida ia enterrar a farpa, o cavallo afocinhou, e o touro apanhando o cavalleiro pelas pernas, arrancou-o da sella e deu com elle em terra, levando-lhe toda a parte trazeira dos calções e mais roupas sob-postas, deixando-o n'um estado indecente.

Fez-lhe exactamente aquella mesma operação que os Ammonitas fizeram aos embaixadores de el-rei David, rasgando-lhes os vestidos pela banda de traz, de sorte que não podiam ser vistos sem uma grande vergonha.

Para logo se converteu a sympathia em desprezo no animo do publico, e resoaram na praça grandes apupos.

O cavalleiro levantou-se lestamente sem parecer que soffrera com a pancada; mas para maior desgraça tinha-lhe caido a mascara e todos o reconheceram.

E quem havia de ser? Gomes. Ouviu-se então um agudo grito de afflicção, que partia de um camarote: era D. Rosa, mãe de Gomes, que tinha desmaiado.

Era o caso que sendo Gomes costumado a ir tourear com os fidalgos, e sabendo da paixão de Diniz por este divertimento, tinha imaginado conquistar n'aquelle dia uma grande preponderancia no animo de Diniz, e por consequencia os affectos de sua filha: feliz ou infelizmente saiu mal do intento.

Mas o populacho era inexoravel e gritava com grande algazarra — fóra! fóra porco! fóra porco!

Ainda Diniz e outros, condoidos do infortunio de Gomes, lhe bradaram – Animo! Torna a picar!

Mesmo assim! Mesmo assim! Gomes tinha perdido a cabeça, e tomando uma grande capa que Espanta-maridos lhe offerecia, fugiu confuso e envergonhado, e ninguem mais o pôde ver durante muitos dias.

Almada em Portugal, a multidão descontente tendo maltratado os toureiros, estes largaram sobre ela os touros, Le Pellerin, n° 1807, 1911.
Imagem: Delcampe

Assim acabou aquella tourada no meio de grandes risadas e comentários; e á noite em casa de Pedro Marques, elle que não era affeiçoado a Gomes, fél-o figurar nas sombrinhas debaixo do nome de — Toureador Melampigo [mit. gr. homem com as nádegas negras] — porque se reconheceu, quando o touro lhe rasgou os vestidos, que tinha de commum com o Hercules da fabula a qualidade de ser muito cabelludo na parte posterior do corpo.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.